Black Buffalo Publishing

Capítulo Três: Três Homens em conflito Parte I

A chuva descia com raiva sobre os telhados de Epcia.
O som pesado das gotas ecoava nas ruas vazias como uma contagem regressiva.
Dentro da sede de polícia, Oficial O’Hara desligava a última luz, mergulhando o prédio em escuridão. Seus passos soavam firmes, silenciosos. Ele havia decidido que era hora de agir por conta própria — longe dos olhos da corporação.

A investigação oficial estava estagnada. Muita burocracia, pouca verdade. E o responsável pelo atentado ao prefeito ainda andava livre.

O’Hara não aceitaria isso.

Chegou em casa minutos depois. Parou diante da porta, encarando a rua vazia como um animal farejando caçadores. Olhou para os dois lados. Silêncio. Nenhum carro. Nenhuma presença visível.
Girou a chave e entrou.

Acendeu a luz do corredor. Tirou a jaqueta da corporação e a pendurou no cabide com o cuidado de quem se despe de um disfarce. Apagou a luz da cozinha. Seguiu até o escritório. Lá dentro, trancou a porta, se sentou em frente ao velho computador e ligou o monitor. A luz azulada da tela iluminou seus traços envelhecidos.

Abriu uma janela de mensagem. Escreveu com precisão:

Boa noite, Senhor Meyer.
Se esta mensagem chegar até você, vá ao cais de Epcia, lado oeste da cidade.
Precisamos unir forças. Seu irmão foi assassinado. E o mandante ainda está por aí.

Digitou o horário do encontro. Enviou. Ficou olhando a tela por um segundo a mais do que devia.

Levantou-se, destrancou a porta e foi até a cozinha. Preparou café. Enquanto a água fervia, nomes passavam por sua cabeça como fantasmas.

Longinus.
Empresário. Rico. Ligado ao governo como vendedor de armas. Um nome perigoso demais para confiar.

Osíris.
O cruzado encapuzado. Vigilante. Implacável. Uma sombra nas noites de Epcia.
Pensar nele já era demais. Convocá-lo… talvez fosse o necessário.

O café ficou pronto. O’Hara serviu-se, apagou a luz da cozinha e voltou para o escritório. Trancou a porta mais uma vez. Sentou-se. Abriu os contatos. Algo chamou sua atenção: um nome escrito em egípcio. Ele reconheceu o símbolo de imediato.

— Grande cavaleiro da noite… por que tanto mistério, se você atua tão ativamente? — murmurou, sozinho no cômodo.

Abriu o chat. Digitou:

Cruzado encapuzado,
Preciso que vá ao cais, lado oeste da cidade.
Daqui a trinta minutos.
Estou investigando o assassinato de Meyer, e reunindo aliados.
Vamos encurtar o tempo entre o crime e a justiça.

Mensagem enviada. O’Hara levantou-se, foi até o banheiro. Escovou os dentes, lavou o rosto com água fria. Queria manter-se acordado. A noite ainda era jovem — e cheia de mortos.

Deixou o quarto em ordem, destrancou a porta da frente, e saiu.
Montou na moto. A cidade o esperava sob uma chuva interminável.

No alto do Mercado Central, o edifício mais luxuoso de Epcia, hologramas dançavam entre anúncios luminosos. Um símbolo de consumo em ruínas.
No topo do prédio, Osíris estava de pé. Capa ondulando ao vento. Silêncio ao redor. As luzes abaixo pareciam pertencentes a outro mundo.

A notificação brilhou em seu visor.
Ele leu. A mensagem de O’Hara.

— Positivo, senhor. Estou a caminho — respondeu em um curto áudio.

Então saltou.
Braços abertos. A capa inflou, funcionando como um planador. Osíris desceu entre os prédios com precisão e elegância sombria. Um vulto em queda controlada.

Lá embaixo, alguns comerciantes e pedestres notaram o movimento.

Gritos ecoaram.

— Alguém se jogou do alto!

Mas logo perceberam. Aquilo não era um suicídio. Era uma lenda viva.

O Cruzado Encapuzado.

A polícia local, em pânico, ativou luzes de busca. Tentaram segui-lo do solo, dos drones, mas Osíris cortou o voo. Escalou as laterais dos prédios com as garras do traje. Sumiu nas sombras.

Epcia era dele agora.

Do outro lado da cidade, Sean Meyer — o Cavaleiro Branco — lia e relia a mensagem de O’Hara em seu holograma pessoal.

Estava em casa, preparando-se para sair. Mas sua mente já não estava lá. Ele via padrões.
Assassinatos recentes. Todos com algo em comum.

Pecados Capitais.

A esposa do jornalista morto — o pecado da inveja.
Seu próprio irmão, o ex-prefeito Chris Meyer — avareza.
Era claro para Sean: quem quer que estivesse por trás daquilo, escolhia suas vítimas com método e intenção.
Cada morte era uma mensagem.

E aquela noite… seria o próximo capítulo.

Os ponteiros da cidade seguiam sem pressa, até que a explosão cortou a madrugada como um grito.

A Torre do Relógio — um dos marcos de Epcia — havia sido atingida.

As sirenes ecoaram. A chuva agora misturava-se à fumaça.

O primeiro a chegar foi o próprio O’Hara.
Rapidamente, começou a evacuar civis, afastar curiosos e abrir caminho para bombeiros e vigilantes.

Logo depois, Osíris apareceu. Corria pelas ruas com precisão militar, capa ainda molhada. Entrou na torre em chamas sem hesitar.

Vasculhou o interior. Andares vazios. Nenhum sinal de civis.
Ia sair quando ouviu.

Choro.

Uma criança.

Virou-se para ajudar. Mas então…

Sean Meyer apareceu na entrada da torre.
Sem dizer uma palavra, puxou Osíris de volta com força.

Segundos depois, o teto desabou onde o herói estaria. A criança desapareceu com o som da queda.

Silêncio. Apenas a respiração pesada dos três. E a certeza de que alguém havia planejado aquilo.

Um inimigo novo estava jogando com peças velhas.
E o tabuleiro agora era Epcia inteira.