HOSPITAL WESLEY DIAS — 24/07/1960
O som da vida chegou como um motor sendo ligado pela primeira vez.
Médico (gritando):
— Está vindo! Está vindo!
Médico (ofegante):
— Vamos, Rose… mais uma vez. Força!
O choro de um recém-nascido ecoou pela sala como o rugido de um motor V8. O médico sorriu ao segurar a criança.
Médico (emocionado):
— É um menino! Veio com muita saúde, graças a Deus!
Rose (exausta e chorando):
— O nome dele vai ser… Kael.
— Eu escolhi sozinha. O pai… não apareceu. Nem no nascimento do próprio filho.
Médico (balançando a cabeça):
— Sinceramente, Rose… que tipo de homem faz isso?
Rose (fitando o bebê com ternura):
— Um dia, Kael vai ser alguém importante. Talvez um médico como o senhor… ou algo ainda maior.
—
7 ANOS DEPOIS — CASA DE ROSE
Kael brincava no quintal com um carrinho, empurrando-o pelo chão de terra. O som de um motor real interrompeu sua brincadeira. Uma picape vermelha, surrada, parou diante da casa.
Um homem desceu do veículo. Barba por fazer, olhar cansado, cheiro de gasolina impregnado na roupa.
Rose (olhando pela janela e abrindo a porta com firmeza):
— O que você tá fazendo aqui?
Jason (hesitante):
— Só… só vim ver meu filho, Rose. Só isso.
Rose (irritada):
— Depois de sete anos? Você desaparece e agora resolve aparecer assim?
Você sempre escolheu a corrida em vez da gente… você e aquela maldita lata velha que chama de Maverick.
Jason (com remorso):
— Eu… Eu fiquei na condicional por um tempo. Depois… eu fiquei com medo.
Medo de olhar pra ele e não saber o que fazer. Eu errei.
Rose (seca):
— Olha, Jason… vê seu filho e vai embora. Ouviu bem? Vai embora.
Jason respirou fundo e andou até o quintal. Kael o olhava com curiosidade.
Jason (ajoelhando-se):
— Oi, garotão… sou eu, seu pai.
Kael (surpreso):
— Pai?
Jason (sorrindo):
— É. Que tal dar uma volta comigo? Quero te mostrar meu carro. Você gosta de carros?
Kael (animado):
— Sim!
Rose (gritando da porta):
— Jason! Ele não vai sair com você!
Jason (seguro):
— Eu tenho direitos, Rose. E ele quer. Só vamos dar uma volta. Eu juro que cuido dele.
Rose hesitou. Olhou nos olhos do filho.
Rose (cedendo):
— Tá bom. Mas volta antes do pôr do sol. E, pelo amor de Deus… não corre.
—
OFICINA DO ROY — 30 MINUTOS DEPOIS
Roy limpava as mãos sujas de graxa quando viu a picape se aproximar.
Roy (brincando):
— Olha só quem apareceu… Trouxe o pivete, foi?
Jason (orgulhoso):
— Pivete não, Roy. É meu filho.
Roy (rindo):
— Tá bom, tá bom… Vai mostrar o tesouro pra ele?
Jason sorriu e caminhou até o fundo da garagem. Puxou a lona.
Debaixo dela, reluzia um Maverick 1963 preto, motor V8 reluzente.
Kael (deslumbrado):
— Uau… que maneiro!
Jason (acariciando o capô):
— Esse é o carro do papai.
— Quando eu me for… ele vai ser seu.
Jason colocou Kael no banco do passageiro e ligou o motor. O V8 rugiu.
Kael (cobrindo os ouvidos):
— Que barulhão!
Jason (rindo):
— Esse é o som do bom e velho carro americano. Agora… segura firme.
Jason arrancou. Derrapou de lado. Kael gargalhava.
Jason sai em alta velocidade, relembrando seus velhos tempos, Kael fica encantado por aquilo, seu pai derrapando a cada curva, o som do pneu cantando, tudo isso era incrível.
Kael então disse:
– Papai, quero ser como você quando for mais velho.
Jason responde:
– Não filho, essa vida não vale a pena. Estude, trabalhe dentro da lei. Prometa isso para mim Kael.
Kael:
– Tá bom papai, eu prometo.
Na estrada, uma blitz policial apareceu. Jason não parou.
Jason (alertando):
— Droga… a polícia. Fica quietinho, Kael.
Um policial saiu do carro, reconhecendo o Maverick.
Policial Bill:
— Eu conheço essa máquina de longe. O que faz aqui, Jason?
Jason (encarando):
— Só vim visitar meu filho. E você, Bill? Ainda servindo e protegendo?
Bill (sorrindo):
— Alguém tem que fazer o que é certo. Você tá bem… não tá acabado, hein?
Jason (rindo):
— Não posso dizer o mesmo de você.
Bill (sem paciência):
— Só a multa hoje. E me faz um favor… diz pra Rose que ela ainda me deve um café.
Jason (acelerando):
— Coloca na conta dela!
—
ANOS DEPOIS — KAEL, 18 ANOS
Jerry Amigo de Kael (empolgado):
— Vai ter uma corrida hoje à meia-noite na principal.
Kael (fechando o capô):
— E o que eu tenho a ver com isso?
Jerry:
— Vem, cara. Só um quilômetro. Corrida simples.
Kael (sério):
— Depois da morte do meu pai… eu nunca mais corri. Esse Maverick é só meu transporte.
Jerry (insistindo):
— Anda, a gente é amigo desde o 3º ano. Não vai me deixar sozinho nessa.
Kael olha o Maverick. Suspira.
Kael:
— Tá bom. Vamos nessa.
Chegam à oficina abandonada. Zoe, em cadeira de rodas, se posiciona para a largada.
Zoe (animada):
— Preparem os motores!
Kael fecha os olhos.
Kael (sussurrando):
— Perdão, pai.
Bandeira baixa. Corrida começa.
No começo da corrida, Kael sente dificuldades, além de ser a primeira vez correndo, o peso de estar fazendo algo que prometeu não fazer.
Kael pensa:
– É sério q eu estou fazendo isso?
Depois de tudo que minha mãe passou, tudo que meu pai fez ela sofrer, eu estou repetindo as ações?
Mas já que estou aqui, melhor orgulhar ele de alguma forma.
Kael vê o carro de Jerry a sua frente, ele não poderia deixar seu maior rival o ganhar assim facilmente…
Kael enxerga uma oportunidade, uma possível manobra, então ele derrapa seu carro, passando perfeitamente entre seu rival e o limite da pista, o ultrapassando é ganhando a corrida.
Kael (eufórico):
— Eu ganhei!
Jerry (frustrado):
— Eu precisava dessa corrida… Ia me tornar o novo Ghost.
Kael (arrependido):
— Eu… não sabia. Sério. Se soubesse, teria deixado você vencer.
Jerry:
— Não. Você venceu. Foi justo. Mas… eu não vou esquecer.
Jerry vai embora. Zoe se aproxima.
Zoe (curiosa):
— Sou sobrinha do Ghost. Organizei essa corrida pra encontrar o novo nome. Como tô nessa cadeira, não posso. Mas você… qual é seu nome?
Kael:
— Kael.
Zoe:
— E pilota o quê?
Kael:
— Um Maverick 63 V8.
Zoe (sorrindo):
— Amei. Vai correr com meu tio dia 19 de abril. Da avenida principal até sua casa. Se vencer, o nome Ghost é seu.
Kael (seguro):
— Combinado.
—
DIA DA CORRIDA — 19/04
Kael respira fundo dentro do Maverick. Um Mustang 67 preto para ao lado.
Dominic (zombando):
— Então você é o garoto premiado?
Kael (encarando):
— E quem vai te vencer.
Zoe (gritando):
— Lado esquerdo, pronto? Lado direito, pronto?
1… 2… 3… Já!
A corrida começa com uma clara vantagem de Dominic, Kael teria que fazer a corrida de sua vida para o ultrapassar
Mas de repente…
Os carros voam. Na serra, quando de repente Jerry surge e joga Kael contra a mureta.
Jerry (friamente):
— Adeus, Kael.
O acidente faz os três carros serem bem danificados, e o de Jerry principalmente,
o Maverick 63 ainda andava, mas bem defazado, mas esse acidente abriu uma oportunidade, a pista se encheu de poeira, e Dominic não podia o ver, então Kael já sabia o que fazer…
Kael então tenta sua manobra, usa um quebra molas de rampa improvisada, passando por cima do carro de Dominic, e do meio da poeira, sai Kael o mais novo, Ghost.
Kael surge correndo no asfalto.
Dominic:
— A coroa é sua. E um ano de manutenção grátis na minha oficina.
Kael se aproxima de Jerry, caído.
Kael (duro):
— Nunca mais olhe na minha cara.
Chuta o ombro de Jerry.
—
ANOS DEPOIS
Kael, agora com 23 anos, é lenda nas corridas. Invicto. Temido. Respeitado.
Mas para ele, tudo começou naquele dia… naquela oficina…
…e com o rugido de um Maverick 63 herdado de um pai ausente.
A chuva cortava o asfalto como lâminas, pingando no capô gasto do Maverick 63 estacionado à sombra de um velho galpão na zona industrial de Vicent. Dentro do carro, Kael Rivera girava lentamente o anel prateado no dedo — o único presente que herdara do pai. Olhou para o volante com um misto de ansiedade e nostalgia.
Kael não era mais um garoto qualquer. Mas também ainda não era ninguém no mundo das corridas urbanas.
Respirou fundo. A noite o esperava.
AMÉRICA CLUB — 22h17
— Então, gente… esse aqui é o Kael — disse Mika, abrindo espaço no meio do galpão escuro e sujo de graxa.
— E aí, seja bem-vindo, Kael! — disseram alguns membros, com batidas de punho e acenos rápidos.
— Valeu, gente — respondeu ele, com um sorriso discreto.
Um cara com macacão azul se aproximou, mãos cobertas de óleo.
— Sou o Hobby, piloto de guincho e mecânico da equipe. Que máquina você pilota?
— Maverick 63 — respondeu Kael, com um certo orgulho no tom.
— Nada mal — disse Hobby, erguendo as sobrancelhas.
Mika puxou Kael para o canto, falando em tom mais sério:
— Aqui a América Club não é só corrida… a gente precisa de lealdade. Provar que você tá com a gente. Tá me entendendo?
— Não exatamente — disse Kael, desconfiado.
— É simples. Tem um posto abandonado fora da cidade. A bomba tá seca, mas tem uma carreta lá nos fundos com 15 mil litros de gasolina. Você dirige de tudo, né?
— Sim…
— Perfeito. Minha irmã Mila vai com você. Ela conhece o caminho. Pega a chave e vai nessa.
Mila se aproximou, sorrindo de canto:
— Então, Ghost… vamos lá?
Kael assentiu, curioso e meio desconfiado:
— Vamos nessa.
—
NA ESTRADA, DENTRO DO CAMINHÃO
Os faróis cortavam a escuridão como punhais. A estrada estava deserta, exceto pelas luzes pálidas que vinham da cidade distante.
— Você não é daqui, né? — perguntou Mila, jogando o cabelo pra trás.
— Não. Vim de Vicent. Precisava esfriar a cabeça.
— Entendi. Você pilota bem. O Jack mostrou o vídeo da sua última corrida… perdeu pra minha irmã, mas deu trabalho.
Kael riu de leve.
— Obrigado.
— Você também é bem bonito… esse cabelo bagunçado, o cavanhaque… — disse ela, sem cerimônias.
Kael sorriu, surpreso.
— Você também é linda.
O silêncio ficou carregado por alguns segundos até que, sem aviso, os dois se aproximaram e o beijo aconteceu.
— Nossa… eu não me relacionei com muitas garotas ultimamente. Espero ter agradado — disse Kael, meio envergonhado.
— Agradou sim — respondeu Mila, olhando pela janela. — Ali, encosta! É aqui.
POSTO ABANDONADO
O cadeado rangeu alto quando Kael arrebentou com o pé de cabra. Entraram cautelosos, lanternas em mãos.
— Cadê a carreta? — sussurrou Kael.
— Lá atrás — respondeu Mila.
Assim que a encontraram, Kael abriu o portão lateral.
— Vou buscar o caminhão. Fica de olho.
Ele manobrou rápido, estacionou e gritou:
— Vai! Prende a trava de segurança!
— Pronto! Vamos logo antes que a polícia apareça.
Eles desapareceram na estrada, carregando a gasolina como troféu. Quando chegaram de volta ao galpão, foram recebidos com comemoração.
— Olha só… não é que conseguiram mesmo — disse Mika, surpresa.
— Eu sou um homem de palavra — respondeu Kael, firme.
— Parabéns. Você tem meu respeito. Mas entenda… aqui as missões nunca acabam.
— Pode contar comigo — disse Kael, com um sorriso frio.
— Hoje chega. Cada um pra sua casa. Você tem onde dormir?
Kael hesitou.
— Na verdade… não.
— Dorme naquele sofá ali. Gostei de você. Amanhã a gente conversa. Vamos, Mila.
— Boa noite, Ghost — disse ela, sorrindo.
Kael se recostou no sofá, fitando o teto sujo do galpão. Pensou no pai. Pensou no anel. Pensou nas escolhas que o trouxeram até ali.
—
NOITE SEGUINTE — A CORRIDA
Os motores rugiam como feras enjauladas. A rua de terra batida, iluminada por faróis e celulares, tremia de expectativa. Axel, o rival de Kael, estava do outro lado da linha de partida — sorriso arrogante, olhos frios.
— Isso não é Vicent, novato — disse Axel. — Aqui é onde homens de verdade correm.
— Eu vim pra correr… não pra falar — retrucou Kael, subindo no Maverick.
A largada aconteceu com um estouro. Poeira, gritos, roncos.
Kael perseguiu Axel como uma sombra, mas o rival bloqueava todas as tentativas de ultrapassagem. Foi então que, numa curva de terra, Kael viu a oportunidade.
Ele puxou o freio de mão com precisão cirúrgica. O Maverick derrapou num ângulo impossível, levantando uma nuvem densa de poeira que engoliu a pista.
Do meio da névoa marrom, surgiu a frente do carro. Kael reapareceu como um fantasma, ultrapassando Axel com estilo e frieza.
— Ele sumiu e reapareceu do nada… igual um fantasma… — cochichou alguém da plateia.
— Ghost… é isso! Ghost! — gritaram.
Naquele instante, Kael morreu. E ali estava ele Ghost.
Naquela noite, depois da vitória, já no banco do Maverick, Kael ouvia apenas a respiração pesada e o som do motor. Então, o rádio chiou.
“VOCÊ FOI ESCOLHIDO… VAROSHA TE ESPERA.”
Ghost estreitou os olhos. Aquilo… era só o começo.