Amanhece, o relógio lhe dá o primeiro impulso para levantar, esbaforido, sai da cama às pressas, lava o rosto e pensa no dia que terá. Faz isso por muito tempo, é o que chamam de rotina. Seu corpo se transforma em algo programável, cada vez menos humano, cada vez mais máquina. Segue em frente, e só então passa a perceber que tudo que fará, não fará a menor diferença, cair agora e abraçar a morte tem a mesma repercussão da árvore a cair na floresta, à solidão é anonimato. O silêncio perturba os sentidos, liga à televisão, ela enche a casa com vozes de pessoas que não conhece e nunca conhecerá, mas ela remete há pessoas que lhe fazem falta, traz lembranças, por um momento corre a sala e acredita, acredita… não, é só a televisão. Faz uma comida e não tem vontade de comer, vê fotos lembrasse do que sentiu, porém não há ninguém para compartilhar, pensa no comentário feito na hora, mas há ninguém para ouvir. Cresce o ardor no estômago, não pensa em médico, porque sabe não está doente, as vozes do lado de fora, fazem-lhe parecer mais patético, bilhões de pessoas e não é amigo de nenhuma delas. Busca suprir a dor, mas as coisas que fazia, as fotos tão cheias de vida são suas piores inimigas, denotam o seu fracasso como ser humano, é só saudade. Não há alternativa é o que o vulto negro lhe diz, seu aspecto medonho e arrogante, o induz a contrapô-lo imediatamente, é quando ele sentencia: “Prove o contrário!” Suas mãos estão vazias, seus pensamentos travam, não há nada a apresentar. Aquela antiga programação diz que deve continuar em frente, não pode parar, é como um corpo viciado, regozijando a solidão e faz a rotina, acorda, lava o rosto, liga a televisão, faz a comida que não come, encara o vulto abutre, é só então O percebe, não há repreensão, não expõe os seus erros, Ele que sempre esteve ao seu lado, pela primeira vez O escuta: “Quando vai parar?”, então cai de joelho – este é o homem em essência – que por um momento que seja, precisa chorar…
O silêncio perturba seus sentidos cansados, a barba feita cheirando a uísque barato e vômito mostram que a noite anterior não fora das melhores.
O relógio lhe revela o quanto dormira além da conta, embora tão pouco importe a si, que se dane a porra toda, não há nada a se fazer, a sarjeta lhe traz um certo aprazimento confortável, aqui não há perspectivas ou dívidas a serem cobradas.
O dia foi perdido, portanto foi trabalhar somente no seguinte. Ao chegar, alguém lhe dita uma ofensa de “folgado”, o dedo em riste em tom de ofensa demonstra que também é malcriado. Pensa consigo mesmo, “Sou uma droga de peixeiro, como cheguei tão fundo?” Enquanto devaneia com tal objeção em contraposto a mente o leva a lugares do passado.
Uniformizado, barba feita, austeridade em seu semblante ereto e probo, mas não é mais nada disso, hoje não passa de uma sombra curvada, fedendo a peixe, é uma droga de peixeiro, só isso, nada além disso.
Durante a hora do almoço e em algumas noites, quando está sóbrio, eles os “visitam”, tira da carteira uma foto enrugada, descolorida pelo tempo e das lágrimas recebidas. Ainda que, às vezes pareça sadismo, a foto só lhe traz dor e lembranças amarguradas, como se precisasse se penitenciar todos os dias.
Em casa, cheiro de peixe entra primeiro, o corpo parece impregnado com esse odor podre, incapaz de abandoná-lo mesmo após o banho. Deveras pouco importe, o pouco sexo no qual usufrui é desfrutado com valores a serem quitados antes de qualquer contato físico, o ápice da sua mediocridade.
Longe de qualquer moralismo, abandona seu “lar” inóspito onde não parece ser bem-vindo, é largado num balcão de boteco que encontra um pouco de paz e pode dormir por algumas horas. Não é complacência ou auto piedade, é como morfina ao que sente dor, alívio! Mero alívio.
Foge e o uísque apaga as lembranças, ameaçadoras de algum tipo de raciocínio. Algo perturbou sua cabeça e não quer reviver o passado, algo lhe diz, é melhor estar onde está, longe de qualquer sobriedade. O barman lhe oferece um copo, sabe da agressividade do ocupante rotineiro daquele banco, e nem protesta quando empurrado perde a garrafa.
De tão bêbado é capaz de dar todo seu ganho do dia por esta única garrafa, eis aí a complacência do dono do estabelecimento, sempre a receber uma inadvertida rendosa “gorjeta”. Mas o “benfeitor caridoso involuntário” não se importa, guardar dinheiro para quê? Não tem mais sonhos juvenis de ser rico e salvar o mundo, o mundo que se exploda.
Cambaleando pela rua, repentinamente um chute contra o peito retirou o seu pouco equilíbrio e o fez se espatifar, pior para garrafa de uísque que termina em cacos. Porém, aquela fora uma agressão leviana, apenas pelo prazer de se cometer, os verdadeiros alvos do grupo de homens de “cabeças raspadas”, estão mais à frente, recolhidos em papelões e sacos plásticos.
Vários pedidos desordenados de socorro são testemunhados por seus ouvidos cansados e suas vistas embaçadas. “Que droga é essa?” – moradores de rua são surrados sem motivo, o raciocínio o abandona e desmaia.
Em casa, todas as lembranças recentes parecem serem fictícias, dormindo no tapete da sala. Passa direto pelo quarto de porta fechada indo ao banheiro. Em algumas ocasiões para diante essa porta e ameaça girar a maçaneta, por isso pregou a porta com madeiras, a mente é fraca e o coração por mais frio, anseia em ser apaziguado.
Dias sufocantes vividos pelo simples fato de estar vivo, melhor seria não estar. Por todos os cantos pessoas apressadas indo de encontro aos seus compromissos, interrompidas às vezes, pela ação de algum trombadinha oportunista.
A cidade parece devorá-lo consumindo o pouco espaço, sufoca. A poluição adentra em seus pulmões, sua testa banha em suor, o desespero encontra brechas para consumi-lo, invadindo-o pelos poros. São Paulo, “terra da garoa”, a garota virgem há muito tempo perdera sua ingenuidade.
Suas mazelas são evidenciadas em suas ruas tomadas por mendigos, sem-teto, cracudos, lixo vira alimento, qualquer quinquilharia de plástico ou papelão vira abrigo.
Os dias foram ficando cada vez mais negros, todos acharam que era por causa da poluição, mas tem algo por de trás desses rostos pacatos e inocentes, e é na noite que muitos deles se revelam.
Violência em cima de violência num estado bruto incompreensível, tudo ficou pior quando elas chegaram, as drogas. Se o diabo existi e teve um plano, são elas a sua principal cartada, é como se invadisse os lugares mais sombrios da mente humana e libertasse todos os demônios ali. Drogas, cocaína, heroína, lembranças ressurgem, uísque! – clama sua mente. Precisa de uísque.
O fundo do poço… parece clichê sua figura taciturna rodeado de prostitutas, bebendo consigo uísque barato, enquanto o dono tenta expulsar algumas baratas que teimavam em rondar o balcão. Talvez, há anos atrás, em outra ocasião sentisse nojo do que lhe cerca, mas não hoje, não nesse lugar, a decadência tem face e, querendo ou não se acostumou a ela.
Não tem vontade de conversar com ninguém, não há o que ser dito, quanto mais vozes gritam em sua cabeça mais recluso fica ao mundo. Sempre temos algo a esconder, nossos pecados. Sua quietude camufla a angústia. Embora seja involuntário, soa tão falso, mas não importa. Para quê cuspir um papo chato, melancólico a ouvidos indiferentes? Com certeza, não levaria sequer uma dessas prostitutas para cama, independente da quantia paga. Os fantasmas de cada um já são assombrosos demais, ninguém precisa se assustar com o dos outros.
Um cheiro passa pelas suas costas o fazendo se virar, nada brusco para não dar alarde, mulher. Seu corpo, seu rosto, seu cheiro, tudo nela exala sexo. Depois de mais um dia melancólico se sente até mais promíscuo do que o habitual, algo parecido com consciência pergunta: como pode pensar nisso? Sexo é instintivo, o faz acreditar na evolução vinda de um maldito macaco, porque o tesão sentido agora não tem nada de casto, sequer passa perto do que se prega nas igrejas. Pensa: “Pode rir Satanás, sente-se ao meu lado e tomemos um copo de uísque juntos, luxúria sem dúvida é um pecado delicioso e se for você o inventor, meus parabéns!”
O revela um sorriso despretensioso, ergue seu copo em reverência e o vira de uma vez em sua homenagem. Uma das prostitutas percebe seu flerte com a estranha, por algum motivo desconhecido, resolveu marcar território vindo ao seu encontro, o abraçando por trás, desabotoando sua blusa e deslizando suas unhas grandes e falsas sobre seu peito peludo, por que permitiu? Queria que visse além da sarjeta em que se encontra, um “rei sujo”, governando um “reino de merda”, a realidade da cena, longe do seu intento, o faz se sentir patético.
E o que ela faz diante a cena? Sorri. Sabe do seu desejo, fica óbvio basta olhar para sua calça, basta um movimento consensual para o ter, tal verdade o faz se sentir mais patético.
Seus dedos deslizam sobre a borda de seu copo, seus lábios umedecem uns nos outros. É um jogo de sedução tão óbvio, que há minutos atrás talvez pudesse o ludibriar, sua beleza camuflaria sua inexperiência, porém não há nada a ser feito diante a marca viva em seu dedo na mão esquerda, revelando um compromisso desfeito. O que veio buscar aqui? Redenção? No inferno? Entre tantos anjos decaídos só vai conseguir mais pesar.
Uma visão poética é só o que faltava agora, entende sua busca. Termina seu uísque, desvencilha-se das garras da puta e joga sobre o balcão, quantia necessária para pagar o seu drink e o da moça ao lado. A puxou pelo braço e reagiu mais surpresa do que combativa, ambos sabem o que querem, do que precisam, estão apenas pulando etapas.
A leva para um beco escuro, sente sua boca procurar a sua com sofreguidão, a farsa de “mulher fatal” e sedutora se esvaiu, denota toda sua fragilidade de ex. esposa malcomida.
Rasga sua blusa, seus seios saltam de encontro a sua boca, enquanto sua mão avança por debaixo do seu vestido, a essa altura até suas coxas estão banhadas. Essa mulher precisa de um gozo indescritível é tudo o que consegue pensar no momento, ajoelhou-se na sua frente.
Rendida, submissa num lar melancólico provavelmente ofuscada numa cama cara e sem emoção, “um papai e mamãe”, de cinco minutos eternos, mas hoje não, surpreendeu-se ao se sentir sendo devorada. Coitada, nunca devia ter sido chupada, nunca viu um homem de joelhos diante si, preocupado apenas com seu prazer. Suas pernas entram numa tremedeira alucinante, ameaça se desfalecer, mas não, romantismo não os compete. Só uma mulher em sua vida mereceu ser amada, nenhuma outra terá isso dele, é o pacto de sua alma. Aqui, anjos não entoaram acordes nupciais.
Suas pernas bambas a rendem ao chão, o observa assustada. A agarrou e a ergueu novamente, a induz a se apoiar na parede suja de mofo do beco. Seus gemidos lhe tiram do beco e o conduz de volta ao seu leito de homem casado, pai de família, onde fazia amor com sua esposa e não só sexo, porém isso é passado. Nenhum afeto, uma personagem naquele beco, o seu “eu” morrera há anos atrás
Ao fim, recompõe-se e se vira de costas a mulher, não há o que ser dito. Contudo, o segura o impedindo de partir, inferno! – pensa ele. Não quer dar nem receber qualquer demonstração de carinho ou afeto. Todavia, para sua surpresa, palavras destruiriam suas certezas adornadas por aquele rosto quase casto, uma boneca de porcelana suja de sêmen, “Você me deve cinquenta reais”. Uma puta! No fim das contas, transara com uma puta! Nunca poderia imaginar, mas agora tudo faz sentido, o flerte, a aliança abandonada momentos antes, a outra prostituta tentando marcar terreno. Retira sua carteira do bolso de trás e apanha a quantia exigida, deixa escapar uma risada falsa, um subterfugio para esconder sua imbecilidade, caíra num jogo, no qual pensara ser senhor dele.
Mulheres, não importa a situação, sempre serão o que quiserem fatais, sensuais, puras, seus mistérios tem natureza própria, ainda bem que na sua condição de homem, pouco se importe, “maldito rei”, dum “reino de merda”.
_ Eu sou uma besta…
Final de tarde, é conduzido a um canto da casa onde tudo parece voltar a fazer sentido. Há uma garrafa de uísque apostos, pronta a saciar a sua sede de esquecimento.
É pequeno, escuro e frio, um lugar temeroso a qualquer outra pessoa, um covil cheio de artimanhas pesadas, mas a fazê-lo se sentir bem e, sabe o porquê.
Apanha na prateleira acima, uma caixa de sapato, com certo peso, em dentro uma arma. Os nervos reagem mais lentos, apaziguados, à espera do fim da dor, o silenciar dos gritos da mente: “Chega de se esconder, de nos torturar, ponha fim em tudo Miguel, por favor! Deixe-nos voltar a terra…”
Tão fácil, haverá dor? Esse é o menor dos problemas, já passou por tanta coisa, que dor seria o alívio perfeito, voltaria a sentir algo capaz de romper o anestésico do álcool. Quem sabe por alguns instantes, voltaria a ser humano.
Lembranças dançam, num deboche instigador, o diabo parece presente, incentivando o puxar do gatilho. Basta um movimento mais acentuado e pronto. Acabou!
O que o impede? Será um corpo caído no vazio, sem cordas, sem amarras, livre! Coitado, tão enganado pelas canalhices dos pensamentos, liberdade requer independência e, é um escravo da tristeza, da amargura. Não é livre para puxar o gatilho, não terá redenção, seria apenas vingança contra si mesmo.
A razão é uma desgraçada, estraga prazer infame! Implora por um segundo de ignorância, só um segundo, é pedir demais? Deu tanto de si, para cair em tormento e, perder toda honradez, maldito “Jó”, um segundo só de ignorância… Uísque! Uísque! – implora.
Não, no lar das verdades, fugir não é uma opção, veio para puxar o gatilho, então que seja pelos motivos certos, nada de mentiras enfeitadas por verdades convenientes.
Faça vingança Miguel, seja egoísta, aplaque sua dor, puna a ninguém! Seja apenas covarde…
Lágrimas salgadas, há tanto álcool no corpo que poderia se embebedar com elas. Trava a arma, perde a paz, cada nervo se descontrola – traidor! – que se dane cada um deles. Uísque! Uísque! – pede a alma e seu corpo em delírio.
Sua vida é um descompasso perdido no tempo, tempo perdido, tempo no qual sequer tem noção se são reais ou não, não consegue mais distinguir o real da alucinação, porque se as imagens em sua mente estiverem certas, está morto. Assassinado, jogado no mar, a cabeça dói e algo se perde nesse espaço, vê-se jogado na rua vivendo como mendigo, uma vida se perdeu naquela água salgada, e quando alguma lembrança ameaça ressurgir a afugenta com uísque, perdera as contas de quantos anos não está sóbrio.
O encontro marcado com a morte, fora desfeito pelo barco pesqueiro que na ânsia de encontrar peixes graúdos resgatou um corpo a decidir pela vida ou pela morte. E ao optar pela vida, custou-lhe a memória, os efeitos assoladores da água fria e salgada devastaram a sua mente, ao ser levado ao hospital não passava de um mero “vegetal”, desacreditado pelos médicos.
Deveria ter morrido, não morreu e naquele leito de hospital, mais tempo se passou, tempo impossível de se calcular. Tal cama se tornou seu túmulo psíquico não havia esperanças de melhoras, tempo demais. Por muitas vezes médicos e enfermeiros quiseram lhe dar uma morte rápida, ninguém iria perceber, quem ligaria? Sorte ter sobrevivido?
E por esses acasos do destino, uma voz dentro da mente gritou a si: “Que pecado!” – foi como uma ignição, o despertar sob um instinto poderoso, capaz de tirar a atrofia de seus membros em desuso. Os movimentos tímidos dos dedos, logo foram precedidos pela firmeza das mãos ao o apoiarem.
Sobre si colocou o jaleco esquecido por algum médico no quarto, não foi difícil sair do tumultuado hospital, cheio de pacientes sem atendimento e poucos funcionários a atender.
Foi dessa forma, o meio parar regressar a São Paulo. Essa é a sua cidade natal, disso teve certeza, após viver algum tempo perambulando pelas ruas comendo restos, guiado por uma programação antiga dessas impostas pela rotina diária feita por cada um de nós, foi para casa. E ao chegar a um bairro memórias esquecidas do lugar onde viveu reacenderam lembranças perdidas, foi a primeira vez que se lembrou de sua esposa, há quantos anos foi isso? Giuliana, era tão linda. Sua mente fica inquieta é possível mesmo sob o efeito de tanto álcool lembrar da euforia daquele dia, imaginou que ao chegar à casa, a encontraria, a mulher das suas lembranças, respostas seriam dadas a tantas perguntas.
Mas não, um silêncio atormentador o invadiu após o estrondo provocado ao arrombar a porta, um vizinho curioso veio ver o motivo e ao se deparar consigo, pensou ter visto um fantasma, embora talvez se tratasse disso o homem a frente, um fantasma, há muito dado como morto. Seu aspecto deteriorado cabelos e barba longa, restos de roupa, incentivaram o curioso a voltar a cuidar da própria vida. Provavelmente nem o reconheceu, podia se tratar apenas de um mendigo procurando abrigo.
Sombras e poeira por todo canto deixavam claro o abandono do lugar, mas um homem sem nada, ao receber um pouco, torna-se um homem com esperança, por quanto tempo se iludiu olhando a porta? Devaneando o girar da maçaneta, vendo sua esposa entrando e se assustando com sua presença, quantas vezes se viu a abraçando e ambos chorando se reconfortando? Todos os dias, dedicava horas só no observar daquela porta… Por quanto tempo fez isso? Uísque, precisa de uísque.
Largado em uma viela suja, estirado sobre a poça do próprio vômito, vê garrafa caída e quebrada, sangue saindo da testa vindo de encontro aos olhos com a ação da chuva. Algo parece adentrar em sua mente e remexer em coisas passadas, onde tragédias e álcool fizeram o trabalho de deixarem adormecidas.
Volta a um cenário semelhante, contudo de anos atrás, bem no início do seu retorno ao “mundo dos vivos” antes de voltar para casa. Enxerga o intenso vermelho, vistas embaçadas por sangue, diferentemente de agora, no passado fora agredido, quase levado a morte.
Vê quatro senhoras perguntando-lhe o nome e amparando sua cabeça, lembra-se da frase dita por si, que lhe causa arrepio, um gracejo quase mudo, mas impactante o suficiente para gerar desconforto: “Que Pecado!” Dotadas de grande fanatismo religioso, as senhoras entenderam o que lhes convieram diante ao estranho, quase morto em seus braços.
Fora levado a paróquia, na qual frequentavam, sendo aparado e socorrido pelo padre e funcionários ali presentes.
Mais tempo perdido, adormecido numa cama, caminhando por entre seus próprios delírios o Cristo pendurado numa cruz a frente parecia real em sua vigília, podia jurar que piscava ao observá-lo, contudo também via pássaros voando pelo quarto, pássaros que ao tentar tocar se desfaziam entre seus dedos, lembra de dias de chuva quando beijava esses pássaros, nada fazia sentido.
O som vindo da paróquia chegava até o seu quarto e podia entender claramente o sermão pregado:
“… eles pensam que não sofrerão a punição por seus atos, iludem-se achando que ninguém os vigia, mas eles serão julgados por sua maldade, não tardará e a vingança divina será lançada sobre suas cabeças, como lança em chamas, a fim de se consumir seus insidiosos pecados! Acham que não existe um Deus? Vendo com desgosto, assassinatos, estupros, roubos? Dez mandamentos foram dados aos homens, dez alicerces para sociedades, são dez mandamentos! E não “dez sugestões”! Não haverá aquele, que banhado de podridão, não caíra, todos eles cairão, amém!”
De volta a realidade ou pensou, um homem agachou-se diante de si diminuindo a distância entre eles, a chuva não coibiu a fumaça espessa baforada vinda do cigarro do estranho fumante.
“A quem quer enganar? Sinto seu medo, sua raiva, seu ódio! É um assassino, por que não está matando? – a omissão do inquirido irrita; o opressor veio com o intuito de ostentar sua força e prossegue: “Nós o educamos cachorrinho! Demos lhe um nome, uma casa, uma tigela de comida, nasceu para nos servir e matar, por que não está cumprindo sua missão? – palavras do fumante.
Seu sorriso rasga a fumaça, o cheiro da fumaça fica mais azedo, percebe o ambiente ficar rubro, o homem fuma sangue, ao tentar se reerguer sentiu um tapa violento contra as costas, o pondo de cara novamente em seu vômito.
Sente a presença de alguém atrás de si, levanta-se a fim de ver a pessoa, é a sua esposa, percebe ainda está preso em seus delírios, ela o toca levemente nos lábios e, Miguel vê em seu ombro pássaros desenhados numa bela tatuagem, lágrimas se misturam a sangue e vômito.
Subitamente o som estridente de um disparo cala o som da chuva por alguns segundos, sua mulher em seus braços desfalece lentamente e, como se estivesse sendo borrado pela chuva, seu sorriso se desfaz. Sua esposa agora é só um corpo sem vida, ela caída, ele de joelhos, o homem a frente sorri e antes que pudesse xingá-lo ou argui-lo de qualquer coisa, o homem contrapõe:
“Foi você!”
Só então Miguel percebeu a pistola em suas mãos.