Black Buffalo Publishing

Sangue, mistério e ação sem limites.
O inimigo é invisível. O tempo está acabando.
E só os Caçadores podem impedir o fim.

Roteiro:  Lincoln A. Oliver

👀 Visualizações:
Capítulo Um – Festa de Aniversário

Estava de noite, as luzes dos postes já se encontravam ligadas ao longo de toda a rua. Em uma casa com porta vermelha de dois andares num bairro classe-média, várias pessoas, a maioria não sendo residente dali, esperavam pacientemente o começo de uma festa.

E lá estava ele, o quase herói de nossa história trancado em seu quarto sem vontade alguma de descer para receber os convidados de seu aniversário de 14 anos. Já fazia uma hora que começara a ouvir a porta de entrada lá embaixo se abrindo de minuto em minuto e os cochichos das pessoas que acabavam de chegar. Ele olhava para o teto com indiferença, tentando imaginar uma boa desculpa para mandar todos embora. Mas não conseguia pensar em nada.

Seu quarto era o que possa se chamar de comum para um adolescente, alguns pôsteres espalhados pelas paredes, no canto uma escrivaninha que sua mãe lhe dera há dois anos imaginando que ele fosse usar para algo como mesa de trabalho para desenhar ou algo do tipo, mas que na verdade era apenas onde havia deixado um sanduíche de três dias atrás, e que já tinha atraído muitas moscas. Ele estava deitado na cama de pernas cruzadas, com o fone de ouvido quase no máximo, foi então que alguém bateu em sua porta com avisos de ‘’não entre’’ e ‘’perigo’’.

– Henrique! – Era sua mãe quem chamava.

Levou um tempo até que se desse conta de que tinha alguém ali, retirou os fones e perguntou:

– O que é?

– Como assim ‘’o que é’’? Você já devia estar pronto, todos já estão lá embaixo esperando. 

Henrique pegou o celular e viu que já era 20:30, desligou a tela do aparelho e observou seu reflexo nele por um momento. Um adolescente com cabelos loiros rebeldes, olhos castanhos e rosto triangular o fitou com uma expressão desanimada. A contragosto, saiu de seu estado relax e abriu a porta. Sua mãe estava do outro lado com as mãos nos quadris, era uma mulher bonita de rosto triangular, com cabelos loiros brilhosos e olhos tão verdes quanto uma esmeralda.

Ela o observava com uma expressão emburrada.

– Mãe, me deixa ficar aqui em cima dessa vez, não quero ir pra aquele aniversário. – Se queixou ele.

O garoto conhecia bem o comportamento de sua mãe, sabia que ela não estava brava de verdade, apenas se mostrava assim para convencê-lo a descer logo, mas o problema é que ele não queria, não pretendia ir para o meio de um monte de gente para interagir com eles.

– Não. É o seu aniversário. Você tem que passar com seus familiares e amigos, não trancado no quarto. – Declarou ela em tom definitivo.

Ele queria refutar mais, no entanto, nunca havia ganhado uma discussão com sua mãe, talvez pelo fato de ela ser advogada e provavelmente conhecer mil e uma maneiras de condená-lo verbalmente. Por isso, resolveu desistir e obedecer.

– Ok, mãe, você venceu, eu vou pra festa.

A expressão emburrada dela se transformou instantaneamente.

– Muito bem. Vou esperar você se arrumar.

Ela saiu com um meio sorriso, feliz com a nova vitória que havia conquistado contra o filho.

Minha mãe deve ser uma das mulheres mais perigosas do mundo. Pensou o garoto enquanto a observava descer as escadas.

Voltou para o quarto e trocou o que vestia por uma camisa preta, um jeans surrado e um tênis escuro, que habitualmente utilizava. Ele impeliu-se escada abaixo e virou à direita dando de cara com a sala, onde a festa já tinha se iniciado. Aquela sala nunca fora o lugar mais espaçoso do universo, mas agora praticamente não existia metro quadrado para se pisar ali.

Apesar de sua mãe ter convidado amigos, ele não conhecia a maioria das pessoas que lhe cumprimentavam. Dentro de si, Henrique desejava cortar a própria jugular, ter um ataque cardíaco, ou qualquer outra coisa que pudesse livrá-lo daquilo tudo. Era como se não fosse seu aniversário e sim um tipo de reunião para pessoas acima de trinta que adoravam se entupir de refrigerante e salgadinhos.

Ele se sentiu como se aquela nem fosse sua casa, estava perdido, não sabia aonde ir. Não havia ninguém que tivesse intenção de trocar mais de cinco palavras – ele tampouco tinha vontade de conversar com alguém. Ficou deslocado em meio às pessoas, para cada canto que ia, tinham adultos conversando, o que para um aniversário de adolescente não tinha lá muito sentido, embora, fosse alguém de poucos amigos, e não houvesse se importado quando sua mãe lhe disse que tomaria a liberdade de trazer os convidados.

As rodas de conversa eram extremamente entediantes e ele estava a ponto de gritar para todos irem embora. Mas como isso enfureceria sua mãe, decidiu optar pela solução mais simples e, quando a chance surgiu, saiu de fininho direto para o seu quarto. Mas andou sem olhar direito e acabou esbarrando em alguém.

– Ei, presta atenção! – Ralhou uma voz feminina.

– Ah, foi mal. – Ele se desculpou.

Havia esbarrado numa garota que como vários ali, não fazia ideia de quem fosse. Tinha a mesma altura dele, os olhos grandes e cinzentos, o cabelo ruivo bem ondulado caindo nos ombros, um nariz fino no meio do rosto, com algumas sardas salpicando as bochechas. 

– Da próxima vez, presta atenção por onde anda, você me fez derrubar meu celular. – Ela abaixou e o pegou.

Henrique se demorou um pouco na fisionomia daquela garota, pois alguma coisa nela lhe era vagamente familiar, talvez fosse pelas roupas estilo roqueira que estava vestindo, ou pelos olhos cinzentos, não sabia dizer. Voltou a si, e tratou de se afastar.

– Já pedi desculpas, agora me dá licença, quero sair logo desse inferno de festa.

Quando pôs o primeiro pé na escada, escutou a voz de sua mãe atrás de si, o que arruinou completamente seu plano de fuga. Ao se voltar para ela, esperou levar uma bronca por tentar sair sem permissão, mas ao invés disso ela lhe apresentou a menina em quem esbarrara há pouco.

– Filho, essa é a Cristiane, ela é filha da Diana. – Disse enquanto segurava-a pelos ombros.

– Só Cris, Dona Laura. – Falou ela sem olhá-lo.

Henrique ficou surpreso com a informação. Conhecia Diana desde pequeno, era uma mulher esguia, com o cabelo ruivo curto, olhos cinzentos e sorriso fácil, que costumava usar roupas com tema de rock, coisas como coturnos, calças jeans e jaqueta de couro. Era uma antiga amiga de sua mãe e, segundo ela, tinham se conhecido no ensino médio. Nunca teria pensado que Diana tinha uma filha, tampouco que fosse encontrá-la na noite de seu aniversário. Tentou fingir que era a primeira vez que falava com a garota e fez o melhor que pôde para ser educado.

– Ah, olá.

– Olá. – Ela respondeu.

Aparentemente satisfeita com a ‘’interação’’ dos dois, a mãe de Henrique disse:

– Bem. Vou deixar vocês dois aqui para conversarem melhor. Tchau.

E com esse comentário, ela saiu dali e voltou para o meio da multidão onde conversava com um homem parrudo de bigode espesso e grisalho. O garoto olhou de sua mãe para Cris, que tinha uma expressão de quem observava a paisagem.

Esperava que ela estivesse com a mesma falta de vontade para conhecê-lo que ele estava para conhecê-la, já ia tentando voltar ao quarto quando a garota lhe dirigiu a palavra.

– Então…quer dizer que você é o aniversariante? – Perguntou Cris com uma sugestão de indiferença na voz, como se perguntasse por educação.

Henrique sabia que não tinha obrigação de responder, e na verdade não teria problemas em deixá-la ali falando sozinha, mas sua boca respondeu sozinha:

– Sim, eu mesmo.

– Mas por que então você não fica na festa? Ela é sua.

– Pra ser sincero, não gosto de festas, me sinto esquisito no meio de tanta gente, entende?

Cris assentiu com a cabeça.

– Até que sim, na verdade se não fosse a minha mãe, eu não teria vindo.

– Se não fosse a minha mãe, eu também não. – Disse Henrique humoristicamente.

A garota deu uma risadinha.

– Você até que não é tão chato, Henrique.

Ele tomou aquilo como elogio.

– Mas, então, se não quer ficar aqui, o que você vai fazer? – Ela perguntou.

– Eu estava indo para o meu quarto. – Falou, apontando para escada.

– Bem, se importa se… eu for com você? – Perguntou Cris um pouco acanhadamente, talvez temendo ouvir um “não”.

A pergunta repentina o fez engolir em seco, talvez por ser a primeira vez que uma garota lhe dizia aquilo, ou porque de certa forma era tudo um terrível dilema, pois o que sua mãe diria se soubesse que ficara sozinho no quarto com Cris? Na verdade, nem ele mesmo saberia o que fazer. No entanto, a própria havia o deixado sozinho com a garota, alguns instantes atrás, com o intuito de deixar ambos se conhecerem.

– Só nós dois? – Perguntou ele com medo da resposta.

– Não. Eu vim com uns amigos meus, e eles também não estão muito a fim de festa, vamos todos juntos, tudo bem?

– Ah, claro. Um certo alívio atravessou sua mente.

Cris se foi, e Henrique ficou aguardando na escada. Passado algum tempo, ela retornou, acompanhada por duas garotas gêmeas de cabelos loiros e olhos azuis, diferenciáveis apenas pela altura e pelas roupas de cores diferentes que utilizavam. As duas sorriram e cumprimentaram Henrique simultaneamente.

– Oi.

Aquilo o fez se lembrar do que diziam sobre gêmeos, de que eles possuíam uma espécie de conexão e costumavam dividir frases, aparentemente, era verdade.

Também havia outra pessoa, um garoto musculoso, com, pelo menos, vinte centímetros de altura a mais que Henrique, de pele cor chocolate e queixo pontudo, usando um blusão preto, com o capuz lhe fazendo sombra sobre os olhos e uma calça camuflada.   

– Henrique. Essa aqui é a Anabel – Cris apontou para a menina mais alta –  e essa aqui é a Clarissa. – Apontou para a outra garota.

– E aí? – Cumprimentou ele um pouco desajeitado.

– E esse grandão se chama Alan.

Alan precipitou-se para frente e apertou a mão de Henrique, que conseguiu vislumbrar brevemente um tipo de contentamento em seus olhos. O aperto dele era firme e a mão era calejada. Dava para ver que não era forte só na aparência.

Cris olhou para todos como se quisesse se certificar de que não faltava ninguém ali, depois perguntou:

– Bem, podemos ir agora, Henrique?

– Sim. – Ele respondeu.

Todos subiram as escadas e se foram para o quarto dele, que ficou feliz de ter pela primeira vez gente ali, que não ele ou sua mãe.

– Quarto legal, Henrique. – Comentou Cris.

– Obrigado. – Respondeu.

De canto de olho, o garoto notou que Clarissa estava com uma sutil expressão de nojo, provavelmente devia ter percebido o sanduíche que ele deixara para as moscas, só agora que estava ali que percebera que também deixara sua cama bagunçada. Sentiu uma pontada de vergonha por não ter dado a mais leve arrumação no local, antes que todos o adentrassem. Ninguém mais pareceu notar esses detalhes além de Clarissa, Henrique julgou que ela fosse alguém observadora e provavelmente inclinada à arrumação e limpeza. Ignorando esse fato, ele deu atenção à irmã gêmea dela: Anabel, que estava lhe perguntando alguma coisa. 

– Vamos ficar fazendo o quê?

– Não sei. – Disse Henrique que não pensara direito nisso enquanto galgavam os degraus da escada.

– O que você costuma fazer aqui? – Perguntou Anabel.

Uma coisa veio à cabeça dele, mas achou obscena demais para compartilhar com os outros.

– Pouca coisa. Na verdade, acho que tem algo sim pra fazer. – Henrique foi até sua cama e procurou algo embaixo dela. – Aqui está.

Havia tirado de lá um baralho de cartas preso com um elástico.

– Dá pra gente jogar truco. – Disse erguendo o baralho para que todos vissem.

Henrique observou os rostos dos presentes, ninguém parecia contra sua ideia. Embora já fizesse um bom tempo desde que jogara truco pela última vez, foi a única coisa que envolvia cinco pessoas em que conseguiu pensar, por mais que fosse necessário uma dupla para jogar. Ou seja, a princípio, alguém ficaria de fora.

– Ótima ideia, vamos jogar isso. – Concordou Cris.

Todos se reuniram no centro do quarto e jogaram por incontáveis minutos. Sendo que todos que fizeram dupla com Alan acabaram vencendo, ele era muito bom. Mais tarde, alguém então bateu à porta e avisou que era hora do bolo. Eles desceram juntos e, quando chegou à sala, Laura o puxou de lado e o levou aonde seu bolo estava.

Era branco com detalhes amarelos e tinha ‘’parabéns, Henrique’’ escrito em cima e algumas velas espalhadas por ele. Era triste pensar que, em poucos instantes, o bolo seria dizimado pelas pessoas ali, que já tinham enchido seus estômagos com os salgadinhos da festa, mas que não recusariam uma sobremesa. Assoprou as velas, cortou o primeiro pedaço e o deu para sua mãe, e cortou um para si, depois disso, os presentes avançaram para o bolo como urubus na carniça, uma série de pessoas vieram lhe dar os parabéns e tirar fotos. Henrique teve que se esforçar ao máximo para sorrir diante dos flashes, e após várias fotos, algumas pessoas começaram a ir embora. De canto de olho, ele viu mais alguém se aproximando, então virou-se em sua direção, pronto para ter que tirar outra foto, mas ficou surpreso quando percebeu quem era.

– Oi, Henrique, há quanto tempo não te vejo.

– Diana! – Exclamou ele animado.

Ela estava com as habituais vestimentas com tema de rock. Uma calça jeans escura, rasgada nos joelhos, coturnos amarronzados, uma camisa preta onde estava escrito a letra de uma música, encimada por uma jaqueta de couro preta. O garoto a abraçou e deixou que apertasse suas bochechas como ela costumava fazer.

– Como você cresceu, cara. – Disse ela sorrindo.

Diana era o tipo de mulher que você adoraria ter como tia, era engraçada, falava e andava como adolescente às vezes, além de ter um tipo de despreocupação no olhar, como se nada no mundo pudesse arruinar seu dia.

– Obrigado. – Respondeu ele.

– Pelo que parece, você já tem a mesma idade da minha filha. Falando nisso, ela tá por aqui, você já a conheceu?

– Sim. Diana, eu não fazia ideia de que você tinha filha.

– É, ninguém fazia, além da sua mãe. Mas aconteceram coisas no lugar onde ela estava morando com os meus pais. Resolvi que a traria pra cá, porque agora sinto que tenho maturidade suficiente para ser uma boa mãe.

Era, de certa forma, contraditório para Henrique ouvir Diana falar de maturidade, todavia, ele compreendia que, às vezes, havia mais nas pessoas do que a aparência mostrava. Parando para pensar, percebeu que já tinha um mês que não ouvira falar dela, julgou que tivesse relação com o fato de levar a filha para morar consigo.

– Entendo. – Disse Henrique reflexivamente.

Diana olhou para os lados, procurando algo.

– Henrique, sabe onde está sua mãe? Queria cumprimentá-la.

– Estou aqui! – A mãe dele se materializou ali de uma hora para outra.

– Laura, juro que tentei chegar na hora, mas o trânsito estava horrível. – Desculpou-se Diana.

– Não tem problema. – Disse Laura, virando-se em seguida para o filho. – Henrique pode ir, nós duas vamos ficar conversando um pouco.

– Está bem, mãe.

As duas se viraram e saíram caminhando juntas, Henrique pensou em procurar Cris e seus amigos, para que todos jogassem mais algumas partidas de truco, mas concluiu que, como a maioria das pessoas, eles já pudessem ter ido embora –  apesar de saber que Cris provavelmente só iria para casa quando sua mãe fosse. Decidiu não ir atrás deles e se dirigiu ao sofá da sala, pensando em assistir algo na TV. Passados alguns minutos, as últimas pessoas que ainda sobravam na festa, finalmente se foram, quase tomou um susto quando Cris se largou repentinamente ao seu lado no sofá.

– O que está vendo aí? – Ela perguntou.

– Só um filme. Cadê o Alan e aquelas duas gêmeas?

– O pai da Anabel e da Clarissa já veio buscar elas, e o Alan foi embora alguns minutos antes delas. E já que a minha mãe e a sua estão conversando, eu vim conversar um pouco com você.

– Está bem. – Falou ele desligando a TV. – O que quer dizer?

– Bem, faz quase um mês que estou nessa cidade, não conheço muitas pessoas, então, sabe, tô tentando fazer uns amigos.

– Bom, quer que eu seja seu amigo? – O garoto perguntou.

Cris confirmou com a cabeça.

– É claro. – Aceitou Henrique, que afinal não tinha nenhum amigo.

– Que bom. – Falou ela sorrindo. – Aí, vai fazer algo amanhã?

O garoto disse que não.

– Quer ir comigo no centro? Abriram uma livraria nova lá e eu quero conhecer.

Henrique pensou que Cris talvez estivesse se empolgando um pouco demais nessa história de “interação”, na qual a mãe dele colocara os dois, mas em vez de objetar, perguntou:

– Ah, você gosta de ler?

– E quem não gosta?

– Você conhece aquele escritor, um tal de Lincoln A.Oliver?

– Sim, aquele cara é horrível. – Comentou Cris.

– Também acho. – Concordou Henrique.

– Mas então, você vai comigo? – Perguntou ela um pouco pressurosa.

Ele refletiu um pouco sobre o assunto. Embora não fosse fazer nada demais no dia seguinte, não era costume seu sair de casa, não por seu instinto de conforto humano de sempre se manter perto das coisas que lhe agradavam – embora os livros fossem uma delas, mais especificamente os mangás –, mas porque possuía uma forte aversão a lugares que houvessem pessoas demais. Por outro lado, a presença de Cris, talvez o fizesse esquecer de que tinha gente em volta. Resolveu aceitar.

– Sim, eu quero, que horas?

– Eu passo aqui depois do almoço. – Declarou Cris.

– Está bem. 

– Ótimo.

Conversa vai, conversa vem, os minutos se passaram, e Diana e Laura adentraram a sala dando risadinhas.

– Filha, é hora de irmos embora. – Disse Diana.

– Já, mãe?

– Sim, está tarde, precisamos ir, então se despeça do Henrique.

– Tchau, Henrique, até amanhã. – Falou Cris se levantando do sofá.

– Até amanhã. – Respondeu ele agitando brevemente a mão no ar.

Cris sorriu, deixando-o um pouco sem jeito e depois saiu junto de sua mãe. Quando a porta de entrada se abriu e depois fechou, indicando que as duas já estavam do lado de fora, Laura se virou para o filho e disse:

– É, parece que você e a Cris se deram bem.

– Acho que sim. – Respondeu o garoto.

– Pra ser sincera, acho que essa festa só serviu para encher a barriga de todo mundo.

– Foi a senhora que quis fazer essa festa. – Relembrou Henrique.

– É, foi. Então deixa que eu limpo essa bagunça toda, pode ir dormir, Henrique.

Ele subiu para o quarto e caiu na cama. Um sorriso veio aos seus lábios quando percebeu que aquele fora um daqueles dias em sua vida, onde nada de horrível acontecera. Não tinha certeza se veria Alan e as duas gêmeas novamente, mas o fato de Cris ter lhe convidado para sair junto dela o alegrava imensamente – não que tivesse segundas intenções sobre o encontro.

De repente, se pegou pensando em quantos dias faltavam para o dia treze de junho do ano que vem, onde teria um novo bolo branco e um possível novo encontro com aquelas pessoas que o fizeram se sentir como um adolescente normal. Não que não fosse, mas, desde que se conhecia por gente, coisas estranhas aconteciam consigo, geralmente quando estava zangado ou frustrado. Como da vez no 2o ano quando alguns garotos imbecis haviam roubado sua mochila e a esconderam, ele ficara muito irritado e, por algum motivo, tudo se apagara diante de seus olhos e, logo após, os garotos apareceram na sua frente com ferimentos e ossos quebrados, o que o fez ser expulso.

 Outro exemplo seria no 3o ano quando fizera uma viagem com a escola, e da janela do ônibus pensou ter visto um cachorro bem grande com espinhos nas costas, após voltar a sua casa e contar a sua mãe o que vira, ela arregalou os olhos espantada e disse que, de agora em diante, não iria mais deixá-lo ir nas viagens da escola, mas talvez para não parecer que achava o filho louco ela falou: ‘’Você tem uma imaginação muito fértil’’.

A última escola em que esteve, há dois meses, o expulsara por conta de ter ‘’acidentalmente’’ destruído todo o banheiro dos meninos porque alguns garotos o incomodaram lá dentro. Segundo o que sua mãe havia lhe dito, ele reduzira as pias a escombros, enfiara as cabeças dos três garotos nas privadas, e em seguida deixara enormes sulcos nas paredes e arrancara a janela e a lançara contra a porta, como se um animal selvagem tivesse tido um ataque de fúria lá dentro.  Laura o deixara uma semana de castigo.

Sua vida era um drama, mas em nenhuma das situações em que havia deixado pessoas machucadas ou destruído algum lugar, sua mãe lhe culpara inteiramente, depois de conversar com ele sobre o ocorrido e vez ou outra puni-lo, Henrique sempre a ouvia resmungar alguma coisa ruim sobre seu pai de quem não sabia quase nada.

Os pensamentos afloravam em sua mente, à medida que os segundos passavam, deu um breve olhar a sua escrivaninha e pensou se não seria uma boa hora para tentar fazer um desenho ou algo parecido, já que as coisas que fervilhavam em sua cabeça, formando redemoinhos confusos de informações, poderiam ser facilmente interpretadas caso fossem transferidos para o papel; no final, acabou por desistir da ideia. Deixou o sono aos poucos tomar conta, até que se chocou contra o muro da escuridão, que o colocou para dormir.

Repousava tranquilamente, não sonhando com nada em particular, o que era bom considerando que seus pesadelos ultrapassavam, de vez em quando, o que as pessoas classificariam como apenas um sonho ruim. Henrique acordou, de repente, para ir ao banheiro, não sabia ao certo quanto tempo se passara desde que havia se deitado, mas, olhando o relógio de seu celular, viu que já eram duas horas da madrugada.

Abriu a porta do quarto e caminhou pelo corredor completamente silencioso até a porta do banheiro. Após se aliviar, encaminhou-se de volta ao quarto. Foi quando ouviu um barulho vindo lá de baixo. Imaginou que sua mãe pudesse ter ido até lá para comer alguma coisa, mas então percebeu que a porta do quarto dela estava entreaberta e, dando uma espiada rápida lá dentro, a viu deitada na cama com as cobertas apertadas junto ao corpo. Ele congelou pensando que pudesse ser um ladrão, mas por que um ladrão faria tanto barulho? Sua curiosidade foi atiçada, decidiu descer para checar.

Pessoas mais inteligentes talvez tivessem tomado uma decisão mais sensata do que apenas ir verificar a origem do som, que agora Henrique conseguia identificar, era de mastigação, alguém triturava algo em seus dentes, e indo pela lógica pensou que, quem quer que fosse, estava na cozinha.

A princípio não encontrou nada, nenhum indício de que alguém esteve ou estava ali, além do som de mastigação. Guiando-se pelo barulho, Henrique constatou que a pessoa estava dentro do armário, mas sabendo que não poderia haver ser humano nenhum ali, já que o armário era parafusado na parede e não possuía espaço o bastante para alguém grande, imaginou que fosse um bicho qualquer. Caminhou para o armário torcendo para que não tivesse nada além de um rato. Quando o abriu, seu coração quase saiu pela boca com o que viu, fazendo-o se afastar do armário com medo. Lá dentro, devorando uma caixa de cereais com ferocidade, tinha um tipo de monstro que, com certeza, não era um rato e que certamente não estava em nenhum livro envolvendo roedores. Tinha uma pele verde escamosa, pequenas garras afiadas, duas asas, olhos inteiramente vermelhos e braços atrofiados, parecia até um tipo de gárgula em menor escala. Henrique ficou encostado contra a parede de olhos arregalados para a criatura.

Abriu a boca para gritar, mas havia um nó em sua garganta que dificultava até de respirar. Pensou em tentar voltar discretamente ao seu quarto, e quem sabe ligasse para polícia, mas o que diria a eles? “Alô, tem um monstro aqui na minha cozinha!” Não parecia uma boa ideia. Mas precisava fazer algo, então, se desencostou da parede e fez menção de deixar discretamente a cozinha, contudo, para seu azar o monstro tinha derrubado um pote de bolachas, que, até então, ele não notara, e que produziu um som crocante de vidro sendo esmagado. Esquecendo por um momento que não estava sozinho, ele praguejou em voz baixa pois um caco de vidro entrara em seu pé descalço. Foi tarde demais para se dar conta do que fizera.

Agora, o som de mastigação havia cessado, só era possível escutar a sinfonia  suave dos grilos lá fora. Virou a cabeça em tempo de ver o pequenino monstro o fitar com profundos olhos cor de sangue e de presas à mostra. Houve um pequeno momento de tensão em que Henrique ficou sem saber se seria seguro ou não correr imediatamente. De canto de olho, ele percebeu que estava próximo à pia; sem pensar muito no assunto, agarrou o cabo da primeira coisa ali que seus dedos roçaram. O monstro de asas curvou as costas e saltou em sua direção, agindo impulsivamente, deu uma pancada nele com a frigideira que estava em sua mão.

O bicho voou para o lado e caiu em cima do fogão, parecendo atordoado.

Novamente sem pensar muito no assunto, Henrique evadiu-se da cozinha e atravessou a sala, indo em direção à porta e saindo para rua. Passados dois minutos que correra pela calçada, se deu conta de que deixara sua mãe sozinha em casa, com uma aberração de asas. Considerou voltar, mas logo seus planos mudaram, quando viu, a alguns metros atrás de si, um borrão verde que voava. Voltou a correr. O monstro o perseguiu enquanto ele avançava desembestado pela rua, assustado e confuso. Muitas vezes, Henrique conseguiu ouvir as garras do bicho cortando o ar rente a sua cabeça e por um pouco não arrancando sua orelha. Mais tarde, o garoto viu a entrada de um campo gramado rodeado por árvores e arrancou em sua direção. Quando adentrou o lugar, parecia que seu perseguidor havia desistido dele, e então teve um breve momento de felicidade, momento que lhe sugou a atenção necessária para prestar atenção à pedra roliça logo à frente em que tropeçou e, de maneira mirabolante, caiu de costas.

Pensou que não poderia ficar pior, quando vindo do alto, a miniatura de gárgula pousou em seu peito com as garras, Henrique gemeu de dor, o monstro arreganhou novamente as presas e esticou o pescoço para frente pronto a cravar suas navalhas dentárias na face do garoto, que estava sem reação.

Foi nesse momento que passos apressados ecoaram na grama, seguido do pé de alguém que passou diante de seus olhos e atingiu o monstrengo bem no rosto e o mandou para além das árvores.

– Tudo bem? – Perguntou o indivíduo enquanto o ajudava a se levantar.

Para sua sorte, as garras do pequeno monstro não haviam perfurado sua pele, embora sua cabeça estivesse rodopiando, e seus olhos estivessem um pouco fora de foco. Não conseguia ver quem era aquele homem, mas a voz lhe soou vagamente familiar.

– Obrigado. – Henrique esfregou os olhos para desobstruir a visão e, em seguida, ficou surpreso quando percebeu quem acabara de salvá-lo. – Espera aí, você não é o Alan?

O garoto alto de queixo pontudo e capuz balançou vagarosamente a cabeça.

– Sim, sou eu, mas sem perguntas agora. – Declarou Alan lançando um olhar na direção em que atirara o bicho de escamas. – Aquele demônio está voltando.

– Demônio?

Alan tinha razão. O demônio, como o havia chamado, saiu do meio das folhas das árvores e pousou em frente aos dois. Ele estava claramente enraivecido, e Henrique pensou que seria melhor fugir, mas o outro garoto o deteve.

– Aonde pensa que vai?

– Vou fugir. – Disse tentando mostrar-se calmo.

– Você não pode fugir de um demônio. É melhor ficar e lutar.

– Lutar contra aquilo? – Questionou Henrique incrédulo.

– Vai correr e se esconder? – perguntou Alan lançando-lhe um olhar indagador com seus olhos castanhos escuros iluminados pela lua, que pareceu insatisfeito com o seu silêncio. – Está bem, eu luto, mas é melhor você não fugir. Fica no canto e assiste.

Henrique ainda queria fugir, mas sentiu que, por mais que aquele plano fosse uma loucura, não tinha outra escolha senão fazer o que lhe foi dito. Afastou-se apenas o suficiente para assistir a tudo em detalhes.

O demônio enrijeceu todo o seu corpo como se fosse um fisiculturista fazendo pose, num primeiro momento, parecia que apenas estava se preparando para atacar, mas não foi o que aconteceu. Em vez disso, seu corpo pareceu começar a sofrer algum tipo de mudança. Ele cresceu, até ficar duas vezes mais alto que Alan, seu físico tornou-se mais musculoso, as asas cresceram e um par de pequenos chifres enfeitou sua cabeça.

Henrique ficou pasmo, certamente, se pudesse escolher, ficaria com o ser quando ainda era pequeno, aquele era muito mais assustador, talvez fosse por conta de sua boca que também havia mudado de tamanho ficando duas vezes mais larga do que era. O mais interessante da situação é que Alan não parecia muito amedrontado, pelo contrário, ele separou os pés e manteve as mãos pendendo ao lado do corpo. “Ele pretende mesmo lutar.” Pensou Henrique.

Houve um momento de silêncio em que os adversários apenas ficaram se estudando. E em seguida, o demônio tomou a iniciativa de atacar.

Suas garras cortavam o ar, buscando rasgar o garoto. Alan foi bem desenvolto, evitando os golpes com uma certa facilidade, que chegava a ser invejável. Por um ângulo de quem não entende de lutas, como Henrique, parecia apenas que ele estava fugindo. Porém, a estratégia era mais ampla que isso. Recuando enquanto movia o tronco para desviar, seu objetivo consistia em se aproximar das árvores. Quando suas costas encostaram numa, uma investida chegou em direção à sua cabeça.

Ele abaixou e quando se ergueu mandou um chute alto por cima do ombro da criatura, atingindo sua bochecha com força o suficiente para fazer voar um dente.

– Que isso… – Exclamou Henrique de olhos arregalados.

Apesar da potência, o chute foi para atordoar. O que realmente derrubou o demônio foi a sequência de socos e cotoveladas que veio em seguida. Aquilo era impressionante, um garoto havia derrubado um monstro daqueles! Mas, apesar disso, a batalha continuava. Alan dominou um dos braços do inimigo caído, o apoiou em seu joelho e realizou um movimento brusco para baixo.

Plack! O barulho de osso quebrando foi bem audível, assim como os gritos de dor do demônio, enquanto se debatia sem parar. A perna de Alan ficou vermelha brevemente e ele meteu um chute na criatura que saiu rolando pelo gramado. Ela se levantou com dificuldade e seu braço pendia inútil ao lado do corpo. Mesmo enfrentando um oponente claramente mais forte, o instinto selvagem que a movia era mais ainda.

Com o braço bom, o demônio arrancou uma das árvores e a ergueu.

– Henrique, se afasta! – Gritou Alan.

Ele obedeceu e ficou a observar enquanto a árvore era arremessada contra o garoto de capuz, que conseguiu se abaixar deixando-a passar por cima de sua cabeça. Após isso, veio mais uma. Alan não fugiu, ao invés disso, se posicionou e seus braços ficaram vermelhos de novo. Com apenas um soco, ele fez em pedaços o tronco, ainda no ar, e enquanto as lascas de madeira ainda estavam caindo, disparou para a frente.

Uma corrida em linha reta, diretamente para aquele demônio, parecia algo idiota. Contudo, ele deve ter pensado que corria algum risco, pois tentou voar para ganhar espaço. Alan saltou e o agarrou pelo tornozelo, o batendo no chão com um estrondo. Para completar, segurou as asas da criatura, pôs o pé em suas costas e as arrancou com selvageria.

Era o fim, ou assim pareceu. No entanto, o monstro ainda estava vivo e aparentemente ainda queria lutar. Com as costas sangrando, se levantou e surpreendeu o garoto pulando em cima dele. Alan quase caiu e teve o ombro acertado pelas garras do monstrengo e sua resposta foi enfiar os dedos em seus olhos. Assim que foi solto pelo inimigo, agarrou o rosto dele e num único e decisivo movimento, literalmente o arrancou fora.

O corpo da criatura caiu morto e Alan se afastou dela, indo até Henrique.

– Eu fecharia a boca se fosse você, uma mosca pode entrar aí. – Falou ele em tom displicente.

Ele alternou o olhar entre aquele garoto e o demônio caído, ainda sem conseguir absorver totalmente a ideia de que haviam lutado. Não havia o levado completamente a sério quando insinuara que ficaria e lutaria. E o que mais lhe assombrou nisso tudo foi o fato dele não estar nem um pouco surpreso ou assustado. Simplesmente, era como se fizesse aquilo todos os dias. Henrique demorou-se algum tempo tentando organizar a mente, fechou a boca e tentou falar.

– V-você, v-você…

– Eu…

– Conseguiu!

– Sim, consegui.

Um nó se formou na garganta dele, que ainda estava pasmo com o ocorrido.

– Mas, o que era… Isso? – Questionou apontando para o bicho morto.

– Não ouviu quando eu disse? É um demônio.

Henrique sentiu uma tremedeira interior, aquilo tudo era demais para ele, era um sonho, tinha que ser um sonho, levou a mão ao bíceps e o beliscou com força; a dor percorreu seu braço, junto com a compreensão.

– Não é um sonho. – Murmurou para si.

– Não, não é. – Confirmou Alan.

– Dá pra você me dizer, desde quando isso existe? – Ele apontou para o demônio.

Alan fez uma expressão de indagação, tentando se recordar da resposta para aquela pergunta.

– Hum, não me lembro exatamente. Mas parece que já faz alguns milhares de anos.

Henrique olhou mais uma vez para o rosto daquele garoto, tentando procurar alguma sugestão de riso, qualquer coisa que indicasse que tudo não passava de uma brincadeira muito bem elaborada. Passado algum tempo em que encarou Alan que mantinha uma expressão impassível, ele respirou muito fundo, tentando acalmar os nervos, e se virou em direção à rua.

– Aonde vai?

– Pra casa. Preciso voltar para a minha cama. Só aí vou conseguir acordar desse pesadelo.

– Não pode se enganar assim, Henrique. – Censurou Alan. – Você sabe que isso aqui foi real.

Isso era verdade, mas o garoto custava a acreditar, embora houvesse uma voz em sua consciência que lhe dizia insistentemente: “Você sabe que é verdade, você viu o demônio”.

– Você não vai me impedir de ir. Que quer que eu faça, ajude você a enterrar essa coisa?

O garoto não falou, apenas o observou com algum interesse.

– É, você tem mesmo os olhos do seu pai. – Comentou.

– Eu não… espera… o que tem meu pai? – Perguntou Henrique sem entender.

– Você quer saber mesmo? – Questionou Alan enigmaticamente.

Henrique o estudou por um momento. “Como ele sabia quem era seu pai? Será que andara sendo espionado?” Com muita curiosidade perguntou:

– Quem é você, afinal?

O garoto de capuz limpou a sujeira nas mangas da blusa e respondeu com outra pergunta:

– Você quer saber?

– Sim, quero.

– Certo, mas aqui não é um bom local. Seria melhor que fossemos a sua casa, está bem?

Algumas palavras apenas resvalaram por ele, que acenou afirmativamente com a cabeça, achando tudo aquilo muito confuso.

0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários
plugins premium WordPress
0
Adoraria saber sua opinião, comente.x