Black Buffalo Publishing

O vírus não é mais o pior inimigo.
No Rio de Janeiro, cemitérios já não conseguem conter seus mortos… e alguns deles parecem ter encontrado o caminho de volta.

Roteiro: Tessa A. Oliver

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Prelúdio

Dizem que para saber o quanto uma cidade aumentou ao longo dos anos, é preciso contar o número de cemitérios da mesma. Se for por esse princípio, o Rio de Janeiro precisava expandir com urgência, pois os mortos pelo coronavírus já estavam muito acima da capacidade de todos os cemitérios do estado.

Fora os poucos túmulos ainda disponíveis, havia também a questão financeira. Muitas famílias estavam endividadas até o pescoço e sepultamentos são caros. Ainda mais com uma procura tão alarmante. Quem tinha mais condições, mandava cremar seus entes queridos, mas a fila de espera dos crematórios também estava extensa.

A solução pouco ortodoxa foi descampar às pressas terrenos em volta dos cemitérios e criar covas rasas. Estava longe de ser a alternativa ideal e muitas pessoas protestaram no começo, mas os corpos de seus parentes continuavam a apodrecer, então, não tinha muito o que fazer.

Outra medida não muito animadora foi aumentar o horário de sepultamento. Nunca havia sido uma lei de fato, mas sim um costume. Com uma pitada do medo sobrenatural, os enterros costumavam ser feitos de manhã bem cedo e iam no máximo até o começo da tarde. Agora, em mórbida demanda, os mortos eram sepultados até 18h, e às vezes esse tempo podia até se estender um pouco.

Era tanta morte por dia que essas velhas crendices perdiam toda a áurea de sobrenatural diante da fatalidade da pandemia. As pessoas, cansadas de tanta desgraça acontecendo, só queriam dar um descanso final aos seus entes queridos com o mínimo de dignidade para depois seguir em frente, torcendo para não compartilhar da mesma sorte dos falecidos.

No Cemitério dos Escravos, bem no interior de Nova Iguaçu, um lugar com uma triste memória, teve que, infelizmente, ser utilizado com mais regularidade. O campo sempre fora o destino final para indigentes ou para pobres diabos que não tinham muito dinheiro para um túmulo digno. Agora era destino certo para aquela quantidade absurda de cadáveres.

O último sepultamento do dia havia terminado e o lugar estava para encerrar o expediente. A família do morto era composta somente de mulheres: a ex-esposa, as duas filhas, a irmã e a cunhada. Cabisbaixas, as mulheres desciam o terreno acidentado com cuidado. A filha mais nova era amparada pela mãe e por uma das tias. Mais atrás, como quem estava na retaguarda, viam a cunhada do morto e a filha mais velha.

— O pai não vai ficar ali muito tempo.

— Verdade…

— Se cair uma chuva, vai levar os defuntos, tudo para o barranco.

A mãe da moça lhe lançou um olhar de censura por cima do ombro.

— O que é, mãe? A cova é rasa demais, uma chuvinha só e desliza tudo…

A mulher pensou em dizer o quanto a filha era insensível demais ao falar da cova do pai com tanta frieza, mas estava cansada demais para retrucar. Não era mais casada com o pai de suas filhas, mas o parco velório foi descontado do bolso dela. A maior parte pelo menos, pois todas ali juntaram o pouco que tinham para enterrá-lo. Como se sempre sobrasse dinheiro. Estava mais triste pelo fato do ex-marido lhe dar prejuízo mesmo depois de morto do que por sua morte em si.

Sua filha mais velha compartilhava do mesmo pensamento, afinal, o velório também lhe custou um pedaço considerável de seu salário como atendente de cafeteria. Há anos os vícios e o comportamento destrutivo do pai havia lhe afastado. É óbvio que estava triste, mas a morte do pai era só mais um problema na sua vida tão infeliz de assalariada.

O carro de um amigo da família as esperava para levá-las de volta para casa. Sendo a última a cruzar o portão enferrujado do cemitério, a filha mais velha reparou que havia um Escort antigo, daqueles conversíveis um tanto afastado do carro do amigo da mãe. Dois homens estavam encostados no capô e pareciam estar esperando alguém. Ambos eram altos e vestiam paletós, camisas e calças sociais. Não tinham a menor cara que precisavam de um cemitério barato para enterrar algum parente: podiam muito estar na porta do São João Batista, trabalhando como seguranças de algum bacana.

O cara mais alto, um homem de longos cabelos loiros avermelhados lhe deu um pequeno sorriso de condolências quando seus olhos se cruzaram. O outro cara, um moreno um pouco mais baixo de cabelos curtos, por sua vez piscou para ela e lhe deu um sorriso malicioso. A garota amarrou a cara para os dois. Se somente estivesse irritada, teria mandado aqueles dois coxinhas para a puta que os pariu. Mas até para isso estava cansada. Se limitou em ajudar a tia a se acomodar no banco traseiro e foi se sentar ao lado de sua chorosa irmã.

Assim que o carro deu a partida, passou diante dos dois esquisitos que nem se mexeram. Apenas continuavam a olhar para o cemitério, como se estivessem esperando alguma coisa acontecer. Reparou que o loiro tinha nas mãos um terço de contas pretas enrolado na mão esquerda. O moreno batia o pé e olhava o relógio impaciente, enquanto acendia mais um cigarro.

À medida que o carro ia se afastando, a moça se perguntou o que aqueles dois babacas faziam ali, esperando diante de um cemitério caindo aos pedaços. Logo percebeu que sua pergunta era uma tentativa de sua mente para distrair do pesar pelo seu falecido pai. Sacudiu a cabeça e mandou os pensamentos a merda, afinal, ela não tinha nada a ver com aqueles dois. Se encostou no ombro da irmã e procurou adormecer.

 

***

 

Poucas horas depois, o breu se instalou sobre as ruínas e as paupérrimas covas do Cemitério de Escravos. Um silêncio viciado preenchia o ar. Aos olhos de pessoas comuns, o lugar era só mais um espaço macabro e assustador. Tinha sorte de seus medos serem limitantes demais para não desbravarem o lugar, pois o que estava prestes a acontecer, era mais terrível do que qualquer imaginação fértil.

Um deslizamento de terra se fez acontecer na última cova ainda fresca. Sons de madeira vagabunda estalando quebrou a calmaria do cemitério. Mais terra deslizou da desleixada sepultura quando um braço saiu de seu interior. Trêmulo, o membro forçou a saída para o resto do corpo, que se colocou de pé com dificuldade.

O pai/ex-marido tinha os olhos vidrados agora. Não enxergava direito, apenas via sombras enevoadas diante de seus olhos leitosos. A boca escancarou e um gemido rouco saiu de lá de dentro. O que fosse agora aquele homem, não sabia porque estava ali ou porque seu sono eterno havia sido interrompido. Seu corpo estava frio e com cor nauseante de azul.

Ficou ali parado e gemendo baixinho até que mais sons de caixões estalando romperam a madrugada aqui e acolá. Havia cabeças, braços e pernas rompendo para fora da terra revirada. Logo, uma dúzia de cadáveres reanimados estava de pé. Alguns rosnavam uns para os outros, um outro parecia lamentar e o resto apenas gemia como se estivessem com demência.

Os mortos vivos não eram os mesmos em vida. Era como marionetes que precisavam das ordens de um titeriteiro para fazer alguma coisa. Não sentiam mais nada e nenhuma vontade própria, apenas um estranho impulso de achar quem os havia acordado. Como não houve mais nenhum estalo, os mortos-vivos deram passos trôpegos em direção à saída. O terreno acidentado os fazia tropeçar e alguns caíram com um baque seco, mas logo de punham de pé com dificuldade. Não enxergavam direito, só se guiavam pelo impulso.

O portão enferrujado era um obstáculo e os mortos se amontoam diante das barras de ferro. Nada foi combinado, apenas empurram com seus corpos frios e o metal cede em um rangido. Aos tropeços pela inércia, continuaram a andar até ganhar a estrada de terra. E apareceu mais um obstáculo: um Escort XR3 1.8, cujo farol tão alto fez até doer os olhos cegos dos mortos.

O motor do carro estava ligado e o barulho os irritou. Podiam não enxergar mais e nem ter mais tato, mas a audição parecia aumentado em dez vezes. Os mortos rosnaram para o veículo como se este os tivesse ofendido. Ficaram ainda mais raivosos com o estampido vindo do porta malas que os sobressaltam. Por de trás da luz alta, a sombra dos dois homens que vigiavam o cemitério mais cedo se sobrepõe.

Os mortos vivos rosnaram para eles. Ficaram ainda mais irritados quando o mais baixo ergueu uma Tommy Gun e a engatilhou. O outro empunhava uma descolada escopeta Ithaca M37. A dupla se entreolhou e ambos assentiram com um ligeiro aceno de cabeça.

— Aê, presuntos! — disse o da Tommy Gun.

Chiando com um ódio bestial, os cadáveres avançaram na direção da dupla. Antes que pudessem chegar os dois, a Tommy Gun e a Ithaca cuspiram fogo em cima deles. O gangster mais baixo mirava com uma precisão cirúrgica bem no meio dos olhos dos cadáveres. O loiro apenas apontava com a escopeta mais ou menos na direção da cabeça dos mortos-vivos e deixava que o arco de pólvora fizesse seu trabalho.

Do alto do morro em que ficava o Cemitério dos Escravos, se viu vários pontos de luz piscando bem como o som dos disparos. Era um cenário até comum em todo o estado fluminense. Mas nenhum observador a distância poderia imaginar que o tiroteio era muito além de um mero assalto entre bandidos e polícia.

Era algo que se não fosse controlado com urgência, seria tão comum como as guerras constantes entre traficantes, milicianos e a polícia no Rio de Janeiro.

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