1° DIA
Já se passaram doze horas desde o primeiro aviso sobre a evacuação. Depois disso, todos os canais da TV foram substituídos por uma mensagem que se repetia: “não consuma nenhum alimento ou bebida produzidos após o dia 12/06/2027”. Acho que se referia a um lote específico, mas não consigo lembrar direito. É difícil lembrar de qualquer coisa quando você está correndo às pressas para sair de casa.
Ainda não consegui processar tudo, mas tenho certeza de que vi claramente o meuvizinho arrancando um pedaço do pescoço da esposa. Eles nunca se deram muitobem, de fato, mas aquele nível de selvageria foi assustador. Fugimos até uma base militar improvisada. Acho que eles também estavam em choque. Todos os pelotões pareciam formados por cadetes inexperientes. Eles foram instruídos a não divulgarnenhuma informação e, sinceramente, tenho quase certeza de que é melhor nãosaber.
Está chovendo lá fora. As poucas luzes que vemos vêm de alguns postes usados para as rondas, ou de algum veículo em chamas. Estou um pouco preocupado. Meus pais e eu fomos levados para exames. Fui liberado rapidamente, mas eles até agora não voltaram.
Estou tentando me manter concentrado. Há mais duas pessoas comigo. Uma delas parece bem calma com tudo que está acontecendo; a outra, acho que o nome dela é Jade, está exatamente como eu. Uma das poucas coisas que consegui trazer de casa foi este pequeno caderno que eu usava como diário. Enquanto estivermos aqui, escrever talvez não seja tão ruim. Consegui até convencer meus novos colegas a fazerem o mesmo.
O mundo foi pro caralho. As ruas estão um caos. Pessoas estão sendo devoradas em cada esquina asfaltada. Seus amigos e familiares ou viraram comida, ou uma daquelas coisas. Os juvenas que estão tomando conta deste lugar estão chamando eles de arrastados, porque, depois de “virados”, essas coisas ficam um pouco mais lentas que uma pessoa comum. Mas acho que isso não importa muito quando você anda com mais de trezentos amigos ao seu lado.
Essa cidade caiu bem rápido. As emissoras tentaram fazer a cobertura em tempo real, mas é difícil se manter no ar quando você está sendo devorado ao vivo, em rede nacional.
Ao chegarmos na base, fomos levados para exames e quarentena, pra ver se estávamos infectados. Quem consegue sair daquela sala tem que agradecer. Vários já morreram desde que chegamos. E eu não consigo me sentir seguro aqui. Esses caras que tão armados estudaram comigo, e o máximo que aprenderam aqui foi pintar meio-fio.
Os soldados de verdade estão montando base nos grandes centros, protegendo o que realmente tem valor. Se alguém sair vivo disso, vai ser de lá, aqui é só uma ilusão. E ficar com esses dois é uma tortura. Um acha que tá vivendo um filme ou aventura. A outra… Não faz nada além de chorar. E sim, se você estiver lendo isso, eu tô falando de você, Jade.
Vou tentar subornar mais uns desses juvenas com cigarro pra ver se consigo uns fones de ouvido. Esses arrastados tão fazendo muito barulho.
[Ela não quis escrever]